sexta-feira, junho 13, 2003

Abertura

Dois pães de alho. Coca-cola. Gorjeta só se o garçom não for aquele mal-humorado bigodudo. Conversas com André. Volta ao prédio da FCE-UFRGS (o mesmo do PPGE-UFRGS).

Ato I
Cláudio entra na sala dos mestrandos do PPGE-UFRGS. Encontra seu amigo e aluno de graduação (na época, 2001), Cristiano Machado.

Ambos se cumprimentam.

Ato II

Começa um bom bate-papo sobre maus políticos, boa economia e vice-versa. Como sempre, tudo descamba para piadas ou outras trivialidades.

Cristiano: "- Estas provas de concurso são uma chatice! Meu, os caras te pedem estas coisas do pré-primário."

Cláudio: "- Que coisas?"

Cristiano: "- Tu sabes: ditongo, tritongo, hiato..."

Cláudio: "- É, a gente aprende, memoriza, e não usando errado, ninguém mais nota..."

Cristiano: "- Meu, o único que eu me lembro é o hiato do produto. Estes de português eu já esqueci. Ha, ha, ha".

Caem as cortinas.

Fim do Ato II (doações na saída, aceitamos vale-transporte)
Dia dos Namorados (Solteiros)

É mais fácil achar armas de destruição em massa nas minhas estantes do que um único presente do Dia dos Namorados

Anyway, antes só que mal acompanhado. (E tenho dito!)
Quando a oferta alemã encontra a demanda de reis franceses

Quem já teve amigo filósofo (ou já cresceu no lar "musicalizado"....se é que existe esta palavra), já ouviu Richard Wagner...e se apaixonou pela boa ópera alemã.

Há uma história interessante sobre a ópera e as preferências dos consumidores. Como sempre, os chatos dos franceses atrapalham tudo. Bem, na verdade não foi o povo francês, mas sim os seus reis.

A história é, em resumo, a seguinte: Wagner escreveu Tannhäuser - cuja abertura é E.S.P.E.T.A.C.U.L.A.R. - com um final definido, antes da passagem para o Primeiro Ato. Contudo, os reis franceses exigiram que se mudasse o final da overture para incluir um ballet.

Moral: A grande ópera ficou conhecida do grande público com duas versões. Eu, particularmente, prefiro a versão original, de final grandioso (o leitor dirá: nazistóide...e eu direi: não tenho culpa se os nazistas tinham bom gosto musical!), mas o fato é que os abastados consumidores encheram o saco e criaram esta variação.

A história, em resumo (num link móvel), aparece neste link.

A grande moral da história (se você ler o artigo) é que o capitalismo teria salvo Wagner se ele vivesse em outra época. Por que? Porque num regime capitalista, não é o rei ou a rainha quem decide o que o artista faz com sua obra, mas sim a interação do artista com o mercado.

É óbvio que há uma influência da opinião do grande público (embora eu duvide que João Gilberto admita isso) na formulação das músicas. Há músicas de baixa qualidade (na opinião de alguns) que são populares e que não são. Também vale o mesmo para músicas de alta qualidade: nem todas são populares.

Há até um certo preconceito anti-democrático em alguns que dizem que Carmina Burana não é mais a mesma porque se "popularizou" (como se um sábio possuísse o privilégio de ter a interpretação correta de uma peça musical).

Eu não sou bom de música, mas, disto tudo, eu só concluo que com ou sem reis chatos, Wagner era bom pacas. Pelo menos para mim. E, claro, tem gente que gosta das duas versões da overture da grande ópera.

Adendo: Wagner era um péssimo economista. Devia meia Europa (ou uma Europa e meia). Daí sua submissão aos caprichos de reizinhos chatos. E, claro, reizinho chato é um bicho desagradável, no século XIX ou no XXI.

quinta-feira, junho 12, 2003

Previsão da Inflação

O jornal Valor Econômico - numa matéria bem pouco didática, devo dizer - fala de ARIMA, ARMA, AR, enfim, de modelos de séries de tempo. O debate? Bem, o ponto levantado por técnicos do IPEA é bem simples: o Banco Central não prevê inflação de forma eficiente.

Duvida? Então confira aqui.
Economistas

Bom texto do Edward Amadeo aqui.
Administração...na prática


From: Dilbert
Milton Friedman fará 91 aninhos...

Milton Friedman está nas bancas, este mês, na Primeira Leitura.

Mas ele está também na Internet. Em 31 de julho, o grande economista (já xingado de tudo quanto é nome por muita gente ignara) fará 91 anos de idade. Você pode mandar os parabéns para ele clicando aqui.

Mas, se quiser saber mais sobre ele, pode fazer uma busca no Google (ou ir direto à Milton & Rose Friedman Foundation) ou ler a homenagem de outro baita economista, Gary Becker.

Sim, na minha graduação, professores (não todos) falavam mal de Milton Friedman sem dizer o porquê. Acredito que muitos deles jamais tenham lido um livro inteiro dele. Não posso dizer muito, nunca pude ler o Free to choose. Mas, claro, meu aniversário está sempre aí, esperando alguém que consiga acertar minhas preferências...:-)
100% não erraram...

100% dos Shikidas economistas (eu e o meu primo Pery) são...

quarta-feira, junho 11, 2003

Terror (I)

Finais de semestre sempre me inspiram. Não, não estou falando do terror do aluno de Administração Estratégica do professor Jamil, meu colega de faculdade, que não se lembrou de buscar seu xerox do caderno de uma inteligente aluna de Administração que estava sobre o cano que fica embaixo da pia do banheiro do sexto andar de nossa faculdade. Não, coitado, este deve ter ficado aterrorizado com a idéia de que algum safado tenha usado seu texto como cola na prova do Jamil que, aliás, foi hoje também.

Não é um absurdo o que colegas fazem com outros? Pensando nisso, eu, que tinha ido ao banheiro cedo, recalibrar minha atividade renal (uau! Fazer xixi em economês!), guardei comigo o xerox e, como o mesmo não tinha nome, entreguei-o ao professor Jamil.

É bom fazer boas ações....

Entretanto, quero falar do terror mesmo, aquele do Bin Laden e companhia. Como sabemos, estudos anteriores de gente como Todd Sandler (um "must" para quem curte Defense Economics) e Walter Enders (um bom econometrista) mostraram a existência de ciclos nas atividades de terroristas.

Ora, terroristas são seres humanos e, até um bocado, racionais. E João Ricardo Faria é um baita economista. Bem, junte o tema com o economista e você tem um modelo teórico que, partindo de microfundamentos para a tomada de decisões, gera ciclos na atividade terrorista.

Não sei quanto a vocês, mas para mim, isto é uma bela contribuição científica. O paper? Tá aqui. (use o Acrobat para ler...).

E, claro, não cole que é baixaria...

terça-feira, junho 10, 2003

Iraque

A Primeira Leitura deste mês está ótima. No site, provavelmente daqui há um mês, deverá constar uma matéria sobre o Iraque e a sua reconstrução.

Como sempre, o fascinante tema: (i) quem deve construir as instituições do Iraque?; (ii) que papel tem o capital social local?; (iii) o que tem a ver a realocação do petróleo iraquiano para seu povo com a construção de uma economia próspera e também mais democrática, enfim, todos estes tópicos fascinantes, estão tratados num artigo que resume os argumentos de um historiador inglês, Charles Tripp.

Compre e leia. Vale a pena. Ou espere um ou dois meses...

segunda-feira, junho 09, 2003

Hetero X Ortodoxia

Nessa discussão heterodoxia e ortodoxia, prefiro seguir o conelho do meu amigo Ramon Fernandez: "Cuide bem do seu programa de pesquisa e não jogue pedra no dos outros". A Economia é interessante demais para perdermos tempo nos aporrinhando.
Fome

Uma ótima entrevista sobre fome e pobreza com a Sônia Rocha aqui.

domingo, junho 08, 2003

Petróleo, Iraque, e um povo livre

O Prêmio Nobel de Economia de 2003, Vernon Smith, neste artigo, trata de um problema que já tentei discutir aqui antes - sem sucesso: o da alocação de petróleo num Iraque pós-ditadura.

Sound too pie-in-the-sky for a country that has been deprived of working financial markets for decades? Not really, thanks to a clever idea put forward by economists Terry Anderson and Vernon Smith (who won the Nobel Prize for Economics in 2002), and statistician Emily Simmons. In a paper written for the Cato Institute in 1999, the authors outlined a scheme to privatize federally owned land in the U.S., but the idea can easily be used as a template for Iraqi oil.

Using their scheme, the Iraqi government would award, to each citizen, certificates representing a claim on the nation's oil wealth. These certificates would resemble a no par stock certificate and function as the currency for oil purchases. If the land already producing oil is worth $100 billion as observers estimate, then each Iraqi would receive certificates worth roughly $4,000. Since that figure is about double the annual wage of a middle-class Iraqi, awarding 10, or even 100, certificates per citizen would make sense in terms of personal asset management.

At any rate, the total amount of certificates would represent all the oil land -- productive and prospective. These certificates would be alienable -- that is, they could be freely traded or transferred. Trading and price discovery could be facilitated by listing the certificates on a stock or commodities exchange. The exchanges, of course, would be free to create futures and/or options markets in these certificates. The certificates would retain their value until the last inch of oil land is surveyed and auctioned.

The actual mechanism would look something like this: As the oil land is surveyed and divided into discrete units, an open auction for the deeds of each unit would be held. The deeds won by auction would be paid for in certificates. Buyers of the deeds -- anyone from an Iraqi citizen to a giant oil company -- must pay with certificates purchased on the market either before or right after the auction. (The existence of a futures or option market would allow potential buyers to hedge their purchases.) Holding a rolling auction -- probably over several decades -- has several virtues. The economy avoids the inflationary impact of a huge, sudden capital inflow; certificate holders can time their cash flow by deciding whether to sell early in the process or at the end of the auction period; and prices for individual certificates could be kept low by declaring "stock splits."

Of course, there will be some Iraqis who are missed during the registration period and don't get certificates. Since they still have a claim on the oil wealth, Vernon Smith suggests the creation of a reserve so that certificates can be awarded as these people present themselves.


Isso é que eu chamo de aplicação da economia para problemas reais. Mas, claro, eu sou um chato, né?
Heterodoxos, ortodoxos, homotéticos, obnoxious

Uma das coisas mais legais que já ouvi foi o professor Peter Boettke, um economista da linha austríaca, dizer (traduzindo mais ou menos...): - Não importa o que você faça, mas faça-o com atitude (determinação)!

O contexto? Bem, eu estava no seminário de verão de Economia Austríaca de 2002.

Agora, vamos esclarecer alguns pontos:

1. Eu nunca assinei nada ao nascer, compromentendo-me a ser heterodoxo, ortodoxo ou qualquer outro termo greco-latino (ou só grego...). Como dizia, acho, Mário de Andrade, eu sou trezentos (não confundam com um conhecido amalucado demógrafo bom de cachaça e gente boa aqui de Minas).

2. Sacanear o outro - Ok. Não sendo nada, não estou afirmando que sou um sem rumo. Quem me conhece sabe bem do que gosto em Teoria Econômica. É óbvio que faço piadinhas ocasionais sobre linhas alternativas que acho ruins. Contudo, uma coisa é fazer piada, outra, completamente diferente, é ser arrogante na própria posição.

3. Quem é mais chato? - Minha experiência pessoal é clara: professores heterodoxos (ou supostamente heterodoxos) não só pregavam como pastores, como também acusavam todo o resto de ser ruim, não ser nada, etc. Tem gente que diz que matemática em economia é ideologia! Isso é patético e levei anos para descobrir isso. Tem ortodoxo arrogante? Meu amigo Ari diz que sim. Eu confesso que nunca vi um, mas não sou imbecil de achar que não existem.

4. Hummm - Pois é. Eu gosto de Public Choice, Nova Economia Institucional economia novo-clássica, história econômica, econometria...e economia austríaca. Isso me faz um heterodoxo?

a) Bem, eu gosto de história econômica quando ela é feita de um modo que muito paleo-marxista não aceita (os não-paleos eu não sei...). Então, para eles, sou heterodoxo, já que no Brasil é quase pecado pensar a história econômica de forma não-dialética.

b) Já para meus amigos novo-clássicos, sou heterodoxo, pois acho Nova Economia Institucional algo razoável em muitos estudos aplicados.

c) Para meus amigos austríacos sou uma besta pois uso matemática quando estudo econometria ou economia novo-clássica, ou mesmo Public Choice.

d) Para o pessoal da Public Choice, sou um indeciso, pois admiro tanto a linha de pesquisa de Don Wittman ("mercado político funciona perfeitamente") como a de Buchanan (troque "funciona" por "não funciona" no parênteses anterior).

e) Para meus amigos econometristas, perco tempo demais lendo sobre a realidade, o que me torna um...ortodoxo? Heterodoxo? Sei lá...

5. Conclusão: Vamos seguir o prof. Boettke e fazer o que achamos. Departamentos de Economia nos quais pessoas se dedicam a destruir o trabalho alheio não crescem: murcham.

Adendo: Por que isto tudo? Porque ontem, na casa do Ari, discutimos (eu, ele, a Patrícia e o Marcus) sobre esta eterna questão para alguns economistas. Lembrei-me do meu amigo Valter que teima - incorretamente, na minha opinião - em dizer que um sujeito que sai de um mestrado em Economia para um doutorado em Estatística é um mau economista ao mesmo tempo em que defende que só matemática salva.

Ora, o sujeito que diz que matemática em Economia é ideologia está tão errado quanto o que diz que Economia é só matemática...

E obrigado ao Ari e à Patrícia, novamente, por aguentarem meu papo ruim mais uma vez...
G - T =... (versão Brasil)

Direto do "Estadão", alguns dados sobre a realidade tributária do Brasil...

'Imposto invisível' come 18% da renda familiar Tributos sobre a renda e o consumo podem comprometer até 30% dos ganhos da classe média MARCELO REHDER

O brasileiro não percebe, mas desde o momento em que sai da cama, toda manhã, já começa a pagar impostos. O simples ato de lavar o rosto e escovar os dentes significa transferência de parte da sua renda para o governo, na forma dos mais variados tributos. Mais precisamente 28% do preço no caso do creme dental, 32% no sabonete, 8% na água e 25% na energia elétrica. E a sangria segue em frente.

No café da manhã, lá se vão mais 15% em média sobre os preços dos itens favoritos da mesa do brasileiro, como café, leite, queijos, pão e manteiga.

Para chegar ao trabalho, vai deixando pelo caminho mais dinheiro para o governo. Do custo de cada litro de gasolina que gasta, 57% são impostos, contribuições e taxas. Se vai de ônibus ou táxi, o imposto é de 5%. Na hora do almoço fora de casa, 25% da conta vão para o governo. Como ninguém é de ferro, na "happy hour", se optar por uma bebida destilada, 65% do que desembolsar pelo drinque serão do governo. Se resolver tomar uma cerveja, vão mais 30%. Se em vez do drinque optar por um cinema ou teatro um pouco mais tarde, 10% do que pagar na bilheteria serão impostos. Caso tenha errado na dose durante a "happy hour" e precise tomar um comprimido de analgésico ou antiácido para curar a ressaca, 28% do preço dos medicamentos também irão para os cofres públicos.

Os dados fazem parte de um estudo realizado pela PriceWaterhouseCoopers, com base em pesquisa de orçamento familiar da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que leva em conta os bens e serviços que uma família de classe média, composta por casal e dois filhos, consome ao longo do mês. Com renda mensal de R$ 3.748,80 (15,62 salários mínimos), essa família gasta 30% do que ganha em tributos, o equivalente a R$ 1.124,64. Desse total, 58%, ou R$ 652,30, correspondem aos chamados impostos "invisíveis", aqueles embutidos nos preços dos produtos e serviços (IPI, ICMS, ISS, Cofins, PIS e CPMF) . A "mordida" é maior do que a do Leão: só 4%, com deduções, vão para o Imposto de Renda. O restante é distribuído entre impostos sobre o patrimônio (5%), como IPTU e IPVA, e a contribuição previdenciária (33%). Só os impostos "invisíveis" roubam 18% da renda bruta da família em questão.