sábado, maio 01, 2004

Países mais livres têm maior economia informal?


Fonte: Ethics, Corruption, and Economic Freedom.
Salvar o mundo? Jeffrey Sachs tem um plano

Esta me foi enviada pelo meu amigo Sérgio Guerra. Vale a pena? Claro que vale. Mas são quatro páginas com um plano secreto para...dominar o mundo? Não. Só para salvá-lo.

KeepMedia | Esquire:A Simple Plan to Save the World
Soldado-cidadão ou Recruta Zero?

Governos adoram criar nomes bacanas para seus atos. É "Ação contra isto", "Fome Zero", "Cidadão X", "Y Solidário", enfim, nomes que apelam para algo normalmente distribuído com média positiva entre nossas preferências. Afinal, imagine um programa com o nome de: "Segurança Zero" ou "Viva a Violência".

Agora, programas precisam de recursos. Palavrório não enche barriga. O ex-ministro, almirante Mário César Flores, em um de seus livros, fala da profissionalização das Forças Armadas. Por outro lado, o governo federal fala de "soldado-cidadão". Cada vez mais fico mais enjoado com estes nomes pomposos....credo.

Mas quais os problemas do programa? Bem, os custos. Quanto custa? As matérias abaixo não dizem, em momento algum, quais são os custos (imprensa jóia esta a nossa...). Mas há algumas pistas.

Falta verba para chamar novos recrutas
O mundo está menos violento?

Aparentemente sim (olhando terrorismo, ceteris paribus).


Fonte: Appendix A -- Chronology of Significant Terrorist Incidents, 2003
Leilão holandês, google e teoria dos jogos

Você já aprendeu Teoria dos Jogos? Se for economista, provavelmente já. Hoje em dia, qualquer escola tem de incluir algumas horas para ensinar este item aos alunos...em algum momento do curso.

Se já estudou, veja a aplicação que pode ser feita aqui, em: Google sets its own terms in IPO with "Dutch auction"

Links:

1. http://www-2.cs.cmu.edu/~sandholm/cs15-892/cs15-892.htm
2. http://ideas.repec.org/p/fth/tilbur/9952.html
3. http://www.quickmba.com/econ/micro/auctions/ (a mais simples de todas)

Divirta-se.

sexta-feira, abril 30, 2004

“Pensou demais pra dar um salário mínimo desse?” (Tasso Jereissati) ou "Um novo mundo é possível, só que ele é bem diferente do que te prometeram por uns 20 anos..."

Sem demagogia. Não há como ser diferente. É um salário mínimo alto? Claro que não. Poderia ser maior? Não sei e possivelmente a resposta é: não.

Agora, uma coisa diferente é dizer que não há porque o (e)leitor se queixar. Ele foi enganado por discursos do partido situacionista durante anos, não é? Qual é o problema?

O problema é saber quem é, realmente, o político mais "sensível" aos "apelos sociais". É aquele que te promete uma chuva de maná ou o que te diz que não dá para tirar água de pedra? You do the math.

Críticas ao mínimo unem base aliada e oposição - Senador da esquerda do PT Paulo Paim anuncia que vai liderar movimento para tentar elevar valor durante votação no Congresso.

Agora, o engraçado mesmo é me falarem de "posição coerente do partido". Paulo Paim é de que partido? PFL?
O Paradoxo Nazista

Já faz tempo que li uma piada na qual se falava que Hitler havia gostado tanto do keynesianismo que teria resolvido implantá-lo...em toda a Europa.

Mas o prof. Ritshcl, através de um cuidadoso estudo econométrico (VAR) mostra que isto não foi bem assim. Ele termina seu texto (em pdf) afirmando que a recuperação nazista (1933-38) é um caso de "...public demand expansion without Keynesian demand creation".

Quer ler mais? Aí vai: Deficit Spending in the Nazi Recovery, 1933-1938: A Critical Reassessment, 2001 (em PDF)
Oba!

Nada como um livro de um sebo chegando em sua casa....

História Econômica do Brasil - Pesquisas e análises de Mircea Buescu.

Este livro é um grande pequeno livro! :D Diversos ensaios de um dos primeiros caras a dizer: "história econômica se faz com dados, não apenas com hipóteses oriundas do sonho de alguém". Eu o considero um precursor dos estudos institucionais. Além disso, quem mais poderia estimar o estoque de capital no Brasil de 1500-1600? O grande trabalho de Buescu, para mim, foi tentar trazer aos pesquisadores o número de engenhos existentes no Brasil das capitanias.

Eu sei que é um gosto peculiar meu mas...ei, este é meu blog!
Um dos mais engraçados episódios de South Park

A sequência de Cartman e Bin Laden imitando os desenhos de Chuck Jones é simplesmente impagável!

South Park: Osama Bin Laden Has Farty Pants - TV Tome
Monopólio da coerção ou Inconsciente coletivo

Eu gosto do Lee Harris. Em TCS: Tech Central Station - Violence, Legitimacy, and the Terror War, ele comenta uma crítica ao seu livro (que eu só não comprei por causa dos dólares, ah...os dólares...) que trata do problema da legitimidade da violência.

Ora bem, eu sempre trabalhei - não confortavelmente, claro - com a hipótese de que o monopólio da violência e da coerção é que caracteriza um Estado. Sigo, assim, uma tradição que, se não me engano, vem de Max Weber, passa por Douglass North e, enfim, desagua nas modernas teorias econômicas da origem do Estado (Olson, Barzel e outros).

Mas isto não quer dizer que eu não acredite em outras hipóteses iniciais. Sinceramente? A de Harris eu não sei se é interessante. Entretanto, parece-me que ele muda o foco da oferta para a demanda. Ele diz: If those in authority are taken for granted as the people who should be in authority by the people over whom they exercise this authority, then their authority is legitimate, and this is true even if we are talking about a bunch of murderous madmen.

Ou seja, se eu tomo por certo (aceito) a autoridade, então ela é legítima. Mas se, ele diz em outro trecho, Louis XVI perde a cabeça, então ela deixa de ser legítima. Na verdade, o que me perturba um pouco nesta análise é que:

(i) grupos de interesse podem defender um Estado ilegítimo - Como nos ensinou Hayek em "O Caminho da Servidão", o totalitarismo é uma espécie de darwinismo social invertido. Como você, ditador, é um escroque, deve ter caras menos espertos que você sob seu comando, mas violentos o suficiente para eliminar seus inimigos. Seu governo terá legitimidade? Depende se você é um destes caras ou não. Agora, uma sociedade tem uma distribuição de caráter que não é muito igualitária (e a única forma de igualá-la é através da educação moral, a não ser que você defenda engenharia genética em termos bem polêmicos);

(ii) se todos suportam (no sentido de apoiar) um governo como o de Hitler, isto torna sua política racista legítima? Infelizmente, em termos legais, sim. Em termos econômicos, não é claro. O bem-estar da Alemanha aumenta ou diminui com a eliminação de judeus? Eu diria que diminui. Dizer que a escravidão foi eficiente naquele período pode ser verdade para alguns setores da economia, mas eu aposto que o cálculo de gente da História Econômica mostraria uma queda do bem-estar total (ei, bom tema para uma tese de História Econômica, se bem que manjado...).

Bem, é difícil elaborar sobre estes pontos sem ler o livro do Harris. Mas, com o link acima, talvez alguém possa me ajudar a pensar melhor sobre se a hipótese dele faz sentido ou não e, melhor, que implicações ela teria, em termos teóricos, para se pensar a economia política da ação governamental. Humm...parece-me legal.
Como vencer um debate sem ter razão

Schopennhauer tem um livrinho assim, que Olavo de Carvalho traduziu, colocando em rodapé notas interessantes. Reinaldo Azevedo, do Primeira Leitura, fez um outro texto de natureza semelhante. Eu anunciei ontem, mas não resisto a colocá-lo aqui (pelo menos as regras).

É importante lembrar que muita gente confunde "opinião neutra" com boa opinião. O que é opinião neutra? Estou chamando-a assim porque caracteriza uma ilusão que diz que somente in medio virtus, ou seja, a "virtude está no meio". Miguel Reale adora esta expressão (ele e outros advogados...você já leu as memórias do Miguel Reale? Deveria ler...).

O problema é que nem sempre isso é válido. Já observei que muitos participantes de debates gostam deste tipo de comportamento. O sujeito quer ser o medio. Acha que, estando no meio, está mais "ponderado", "tolerante" ou "razoável". Nada mais longe da realidade.

E um exemplo simples é: "você é contra a escravidão?" Neste caso, dizer que tem de ponderar ambas as opiniões não me parece uma boa opção (embora ouvir um racista seja uma posição que devemos democraticamente adotar, exceto no caso em que ele nos aponta uma arma...e vice-versa).

Por que as pessoas gostam de ficar no meio? Simples. Elas querem ser populares mesmo que isso lhes custe em termos de amizade. Pense no político em campanha. Por que evitam discursos que realmente revelam suas preferências? Porque perdem votos.

Ou seja, há algo de hipócrita em estar no meio. E eu diria que isto ocorre, principalmente, no caso da política.

Bem, vamos lá. Deixemos o Reinaldo falar.

Primeira Leitura : entenda : Decálogo do bom polemista

Lição número 1 – Seja o primeiro a acusar o outro de agressivo
Jamais permita que seu adversário, numa porfia, seja o primeiro a sacar tal arma. Ainda que você, movido pelo espírito de Platão ou pelo espírito de porco — tanto faz! —, tenha dado início ao tumulto retórico, é fundamental sair gritando, como um bâmbi desarvorado: “Fogo, fogo na floresta!”. Poucas coisas conferem tanto poder a um polemista como o lugar da vítima. Até porque, devidamente protegido, você conquista a imunidade para atacar. Ao acusar o outro de agressivo, você também se candidata a ter o charme da mansidão.

Lição número 2 – Mude sempre o objeto da polêmica
Isso é fundamental. Se você deu o azar de o seu contendor ser do tipo que lhe cobra precisão por isso ou aquilo que você mesmo disse, a sua melhor saída é dizer que argumentos são inúteis porque de todos sobejamente conhecidos. Insista em que o seu oponente não entendeu direito o que você quis dizer. Não se furte a uma sutil autoflagelação retórica e diga, para descrença geral, que talvez não tenha sabido se expressar direito. O objetivo é casar a modéstia de rigor com a sombra de suspeição sobre a inteligência alheia.

Lição número 3 – Acuse o outro de vaidoso
Prática importante. Faça parecer que você está no debate apenas por imposição das circunstâncias. Embora, obviamente, postos frente a frente num confronto, não haja nenhuma razão objetiva que o faça menos vaidoso do que o interlocutor, é preciso ter a primazia nessa classificação. O mundo anda especialmente sensível ao “pobrismo”. O exercício da humildade intelectual faz parecer que você está no confronto apenas porque deseja o bem, o belo e o justo. Por oposição, veja só o que sobrou ao outro lado defender...

Lição número 4 – Diga que seu adversário invadiu a sua privacidade
Ainda que seja falso — o objetivo não é debater, leitor, mas ganhar! —, é muito importante acusar o outro de não fazer a devida distinção entre as esferas pública e privada. Diga que ele abandonou as suas idéias e passou a fazer ilações indevidas que buscam enlaçar QUEM você é com O QUE você diz. Esse jogo “quem/que” confere certo sotaque francês, pós-barthesiano, ao recurso e o faz parecer especialmente hábil nos caminhos da filosofia e da linguagem.

Lição número 5 – Faça da dúvida sua única certeza
Isso é crucial, definidor mesmo de sua carreira de polemista. Evite afirmações categóricas. Ou, pelo menos, sempre as insira num contexto de suspeição da própria afirmação. Faça com que qualquer certeza expressa pelo oponente pareça nada além de afirmação apressada e falta de rigor técnico. Mas não seja idiota: não se atreva a combater as certezas do outro com respostas afirmativas. Oponha ao que houver de propositivo ou de diagnóstico claro no texto a ser combatido não mais do que interrogações — de sorte que a tese alheia se mostre precária mesmo sem ser testada —, mas que ninguém possa, também, vir a lhe cobrar respostas.

Lição número 6 – Seja um cosmopolita
Sob nenhuma hipótese (nenhuma!, ouviu bem?), permita que o outro inaugure a caracterização do que seria a perspectiva provinciana e mesquinha em face do que quer que seja. Sim, a essa altura, o objeto da polêmica já se esvaiu faz tempo (Lição 2). E isso lhe faculta o caminho para afirmações genéricas, aquecidas no forno das mais extravagantes abstrações, sobre, sei lá, o movimento dos corpos celestes, a economia globalizada, as vicissitudes do ser contra o não-ser universal etc. e tal. Assuma o lugar do humanista genérico. Deixe com o outro a tarefa de se dedicar a mundanidades e especificidades. Sei que essa lei é um pouco vaga. Mas é para ser assim mesmo. Fale sobre o nada com propriedade e segurança.

Lição número 7 – Abuse do futuro-do-pretérito
É um tempo verbal especialmente talhado para o propósito de tentar desqualificar o outro sem ter de correr o risco de ser afirmativo (ver Lição 5). Procedimentos como “Eu poderia argumentar (...)”; “Seria ocioso dizer”; “Não me caberia aqui relatar” são sempre úteis. Assim, você se dispensa de argumentar, dizer ou relatar; faz o leitor supor que, se quisesse, você o faria com eficiência e ainda evidencia que a tal tarefa só não se dedicou porque o outro, claro!, não vale o esforço.

Lição número 8 – Acuse o outro de fazer “apenas o debate ideológico”
Mesmo manjado e recurso já bastante conhecido, ele funciona. Ainda que você não consiga provar — porque ninguém consegue — que há argumentos escoimados de qualquer ideologia (por oposição a outros, que são não mais do que ideológicos), operar com tal categoria lhe confere certo ar de superioridade técnica. Se ideológico, logo, ou errado ou mal-intencionado.

Lição número 9 – Seja um bom pessimista
Se não tiver jeito, e você tiver caído mesmo na roubada de ter de responder a uma questão concreta do outro, ainda assim, quando tudo parece perdido, há um ponto de fuga. Combine as lições 2 e 5 e ataque, pelo centro, com Gramsci. Diga-se “um pessimista no diagnóstico, mas otimista na ação”, daí que, claro!, compreenda o esforço sincero do outro em encontrar uma resposta etc. etc. etc. Não esqueça de dizer que você torce pelo sucesso da proposta e até se ressente de não alimentar ilusões. É sempre importante parecer que você enxergou o que ainda ninguém viu. Isso lhe confere certa sapiência senhorial, fazendo o adversário parecer um jovenzinho irresponsável, dado a rompantes de quixotismo.

Lição numero 10 – Renuncie ao triunfo, mesmo que (e especialmente), de fato, você não tenha triunfado
Assim como é fundamental ser o primeiro a acusar o outro de “agressivo” (Lição 1), também exerça o charme da “renúncia ao triunfo”, mesmo que você, de fato, não tenha triunfado. É importante fazer parecer que a questão debatida, para você, não tinha lá tanta importância. Saia-se com uma fórmula mais ou menos assim: “Se, para Fulano, ganhar é fundamental, que fique com os louros desse confronto que nem deveria ter começado”. Só não caia na tentação de encerrar a polêmica com um “Ao vencedor, as batatas”. Porque isso indicará que você não leu Machado de Assis direito. Afinal, o adágio define mesmo os vencedores, e não o ouro dos tolos, conforme se diz por aí.
Quanto vale o Google?

Logo você vai saber.

Google files share offering, estimated at 2.7 billion dollars.

quinta-feira, abril 29, 2004

O anti-semitismo continua na moda ("Estes sofisticados europeus (I)")

Os europeus finalmente reagiram.

Cinqüenta e cinco países comprometeram-se nesta quinta-feira a sufocar o crescimento do anti-semitismo e concordaram que a violência crescente no Oriente Médio nunca pode justificar ataques a judeus.

Os membros da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), de que também fazem parte países da América do Norte e da Ásia Central, concluíram uma conferência de dois dias, com a divulgação da "Declaração de Berlim", documento que condena todas as manifestações e ataque motivados pelo anti-semitismo.


O mundo continua e os anti-semitas continuam tentando ganhar mentes e corações. O problema já é tão sério que os europeus não puderam mais tapar o sol com a peneira: há um problema lá.

Vejam a sugestão do Jack Rosen: "- O anti-semitismo não vai acabar por causa de umas poucas conferências, mas isso de fato pressiona ou envergonha esses países que não querem lidar com isso e agir - disse Jack Rosen, presidente do Congresso Americano de Judeus".

Vale dizer: exatamente o que eu disse em outro post. Quem não quer lidar com isso, quem não demonstra seu repúdio, quem não revela claramente suas preferências é que tem o ônus da prova.

Por isso é que pessoas gostam, por exemplo, quando seus políticos assinam tratados de paz. Quem não os assina gera sempre aquela "pulga atrás da orelha".
Um bom autor

Reinaldo Azevedo, Daniel Piza...caras que são bons de se ler.

Ah, e notem as lições que ele cita no final do trecho. A edição inteira vai ao ar logo mais. Qualquer semelhança com alguns comentários que aparecem aqui de vez em quando não é mera coincidência.

Primeira Leitura: Os que se acostumaram a me ler aqui sempre confrontando questões da vida pública, da política, da economia terão de me dar licença para isso que parece quase uma crônica, um cerzido de impressões, de desvãos subjetivos. Como diria o Rosa, me concedam esse cantinho de “descanso na loucura”. Extraí dessa tal polêmica a que me referi algumas lições. Se ela teve alguma utilidade ao país, e eu acho que teve (santa pretensão!), também serviu para me instruir pessoalmente. Formulei algumas leis gerais, que vou dividir com o leitor. Não custa testá-las, amigo, nem que seja naquele papo de botequim, quando muitos golpes de Estado são dados e muitas revoluções são feitas. Em tempo: bom ou mau polemista, desprezo cada uma das leis que enuncio abaixo, mas as reconheço como corriqueiras em certos ambientes. Na edição final, desenvolverei o Decálogo do Bom Polemista que jamais Serei, cujas leis gerais enuncio abaixo:
Lição número 1: Seja o primeiro a acusar o outro de agressivo
Lição número 2: Mude sempre o objeto da polêmica
Lição número 3: Acuse o outro de vaidoso
Lição número 4: Diga que seu adversário invadiu a sua privacidade
Lição número 5: Faça da dúvida sua única certeza
Lição número 6: Seja um cosmopolita
Lição número 7: Abuse do futuro do pretérito
Lição número 8: Acuse o outro de fazer “apenas o debate ideológico”
Lição número 9: Seja um bom pessimista
Lição numero 10: Renuncie ao triunfo, mesmo que (e especialmente), de fato, você não tenha triunfado
Como é que o governo cresce?

Já é uma pergunta difícil. Mas fica mais complicada quando a gente lê que:

Está ainda sem acordo para votação a MP 163/04 que cria 2.793 cargos comissionados no Executivo. O senador Arthur Virgílio, líder do PSDB, anunciou a apresentação de um requerimento convocando o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, para que explique as razões da MP e informe quais órgãos receberão os novos contratados sem concurso público. A MP está trancando a pauta de votação de projetos no Senado e terá que ser votada até o dia 24 de maio, sem o que as pessoas contratadas (já o foram), com base no seu texto, poderão ser demitidas.

Há algumas coisas a aprender do episódio em curso, a saber:

* O Governo alega que não tem recursos para investimentos em áreas vitais como a malha rodo-ferroviária, além de hospitais e escolas.
* O Governo já contratou as 2.793 pessoas com critério exclusivamente partidário: são associados ao PT, sindicalistas ou uma simbiose. Como não se sabe em que áreas serão lotados, não se conhece outro critério. A democracia não deveria permitir isto.
* Há milhares de concursados, já aprovados, esperando sua vez. Não é justo preteri-los.
* Um governo sério não pode fazer da máquina pública uma extensão do seu partido. É imoral e antiético.


O texto acima é do Arthur Chagas Dinize, do IL-RJ. Pois bem, suponha que você não seja liberal. Ainda assim, o que está dito aí em cima necessita ser explicado.

É uma lógica diferente de crescimento do setor público. E tem uma questão que eu nunca pensei: se você tem caras concursados esperando numa fila, em detrimento de colegas de partido (o famoso "se fosse o Maluf seria empreguismo (I)"), para que serve um concurso público?

Outra pergunta que eu gostaria de ver respondida: qual o tempo médio que o brasileiro espera numa fila, após passar em um concurso? É assim no resto do mundo?
Ainda o Terrorism Futures

Wired 12.05: Poindexter Confidential
Brasileiro é bom empresário?

Aí vai uma nova: Carlos Ghosn, o brasileiro que saiu da Renault para recuperar a Nissan acaba de ser premiado pelo governo japonês por ter reerguido a indústria automobilística japonesa.

Eu não conheço muito da trajetória dele, e ele pode bem ser um exemplo de um "rent-seeker" de sucesso, muito mais do que um "profit-seeker". Mas eu tendo mais a acreditar na segunda hipótese. Por que?

Meu palpite é que ninguém é contratado pela Nissan para reerguer todo um setor, mas apenas a empresa. Claro, se ajudar meu concorrente aumenta meu lucro (creio que há casos em que isso pode acontecer....ou não?), eu ajudo. Mas o mais comum é que estas alianças não perdurem ou terminem em fusão.

De qualquer forma, é bom ver que nem todos os governos satanizam empresários neste mundo. Aqui no Brasil, de forma muito hipócrita, joga-se a culpa da crise no capitalismo (a famosa crise do capitalismo que nunca termina e nunca é comprovada) e, quando se precisa de cobrir o déficit, pede-se que paguem mais impostos.

Duvida de mim? Faça as contas: quantas camisas com o rosto do Antônio Ermírio (ou do Carlos Ghosn) você vê nas lojas? E de assassinos como Che Guevara? E as manchetes de hoje? Como a imprensa tratou o recebimento da medalha?

quarta-feira, abril 28, 2004

A coisa não anda bem no modelo brasileiro de crescimento

Bem, até andam, se você só pensar no PIB per capita. Mas isto é uma afirmação incorreta. Afinal, a externalidade negativa é igual ao produto que deixa de existir, à renda que deixa de ser gerada porque você foi assassinado.

Nunca achei que fosse concordar com Keynes, mas ele está certo: "no longo prazo, todos estaremos mortos". Eu complementaria: "principalmente no Brasil".

Agora sei porque Deus é brasileiro...

Brasil registra 11% dos homicídios no mundo - Terra - Brasil
Os neo-discriminadores?

A questão das quotas raciais dá pano para manga. Mas é difícil dizer que elas são ótimas porque nos EUA funcionam (funcionam?). Primeiro porque não é certo que funcionam. Segundo, há a questão de que o Brasil não é os EUA no seguinte sentido.

A lei da gravidade aqui, é a mesma de lá. Logo, você pode usar a física aqui ou lá. Também pode usar alguns princípios de Economia básicos. Aqui também, o governo passado mostrou, o controle da oferta de moeda diminui a inflação.

Mas aqui não tem Ku Klux Klan. E nem tem uma distinção clara entre quem é ou não negro. Dá para ver quem é pobre e quem não é. Mas o pobre nem sempre é negro, embora muitos o sejam. Mas aí o ponto é que a discriminação é contra pobre, não negros.

Gianotti pode ser acusado de tudo, menos de racista. E eis o que ele pensa sobre isto, embora numa matériazinha bem xoxa do portal Terra...(muito " " e pequena). A manchete até parece uma lamentação. Mas aí é viés da mídia mesmo (ou neura minha com a manchete), não importa. O importante é saber se esta política é mais eficiente do que as alternativas (quais seriam?).

Gianotti critica cotas raciais em universidades
MIDIA MANIPULADORA : Um belo exemplo do trade-off entre ganhos de curto prazo versus ganhos de longo prazo.

Este artigo faz uma ótima análise sobre as posturas tomadas pela mídia, brasileria em particular, nos últimos anos. Com o intuito de maximizar vendas, deixaram de lado sua função primordial, qual seja, informar. Os efeitos de longo prazo tendem a ser os piores possíveis, principalmente quando consideramos a existência de bens substitutos - rádio, televisão, internet. Vale a pena ler com calma.
Eu já ouvi dizer que ditadura faz mal à saúde....

...mas isto é ridículo... :D
O meio-ambiente vai bem, obrigado

Para quem gosta do tema "externalidades", "bens públicos", eis aí um bom texto (integral, para download, lá).

Um trecho importante: And recent findings in climate-change science also give reason for hope. Because the climate models have been based on flawed economic assumptions, there is even greater uncertainty now in the range of CO2 emissions projections. This means the prognosis is probably not as grim as conventional wisdom would have us believe.

A fonte original é o PERC (Property and Environment Research Center (http://www.perc.org).
E falando no PCC...

Olha o que o PCC (o que mata mais gente) fez!!

China has shut down 8,600 Internet cafes in the last two months as part of an ongoing crackdown on the media, state press said Tuesday.

"Since our video conference on this issue on February 19, we have banned 8,600 underground Internet bars," the People's Daily quoted Minister of Culture Sun Jiazheng as saying.


Sendo informação um bem público, como vimos abaixo, seu fornecimento pode ser feito privadamente ou pelo Estado. Claro, bens públicos envolvem, necessariamente, uma discussão sobre a maior ou menor politicização da sua produção. Vale dizer: é mesmo economia política.

Dito isto, não compartilho do entusiasmo de alguns sobre o modelo chinês de desenvolvimento. Se você acha que o desenvolvimento econômico de lá se dá de forma independente deste tipo de política, você se engana. Há uma clara interconexão e, até o momento, parece haver mais geração de bem-estar líquido do que perdas. Mas isto também é discutível...
Talk is cheap? No. Talk has costs.

Neste bom capítulo do livro de introdução à economia, David Friedman trata das falhas de mercado.

O melhor exemplo disto é o famoso talk is cheap. Essencialmente: falar é tão barato, mas tão barato, que você às vezes tem que ouvir um orador falar sobre abobrinhas por muito mais tempo do que gostaria de pagar. Por isso nos chateamos com os discursos do(s) presidente(s) na TV.

Uma forma de coibir isto é, claro, colocar um preço nas conversas. Ok, você pode falar, mas não pode falar para sempre. Eu tenho mais o que fazer. Isto acontece na prática? Sim. No caso de um discurso, basta você ir embora (exceto se você mora em Cuba ou na Coréia do Norte). Na TV, basta mudar de canal (idem).

Logo, ao limitar a diversificação da informação, você gera perdas de bem-estar. Pessoas não querem ouvir o que você quer dizer sempre e nem todo o tempo.

Você pode pensar: vamos impor a censura oficial. A censura oficial, ao contrário da censura privada, é ineficiente. Gera perdas de bem-estar porque não há negociação entre o "oficial" e cada indivíduo do país. Censura privada existe o tempo todo e muito dela é norma social adquirida culturalmente.

Veja bem, um programa de rádio é um bem público e, para ser ofertado, vem com comerciais junto. Rádios comunitárias pretendem não fazer isto, mas fazem. Só que com seus impostos.

Agora, comunicação gera ruídos. Quando um cara diz: "eu acho que o pessoal deveria fazer isto", tem gente que entende: "ele quer que o pessoal seja obrigado a fazer isto". Claro que há um erro aqui, mas, como eu disse, talk is cheap. Para os dois lados.

Mas se a conversa se inicia com um ataque pessoal como "você é intolerante e racista", então não pode terminar de outra forma.

Moral da história:

1. mesmo em blogs, talk is not cheap. A não ser que você não deixe o cara fazer comentários. Tive uma discussão com o Gilson uma vez por causa da forma como ele qualificou Ariel Sharon. E não deletamos seu post. Porque ambos achamos que censura não é legal.

2. mesmo em blogs, be careful and polited. Preste atenção antes de colocar um comment. Se você parte do pressuposto que o sujeito vai entender sua fala de forma agressiva ou não, está errado. Ninguém está te vendo ou ouvindo. Se você não gostou do post, deixe sua opinião educada e "mude de canal". Você não mora em Cuba.

3. mesmo em blogs (indeed), quem fala o que quer, ouve o que não quer. E isto vale para quem publica e para quem comenta. Chegou disposto a brigar, então vai aguentar. Esta história de desqualificar as opiniões da pessoa e depois sair ofendido porque levou troco é papo furado. Afinal, talk isn't cheap. A não ser que um dos interlocutores seja uma árvore.

terça-feira, abril 27, 2004

Os dados não mentem

"Quem ajuda mais no mundo?" Brasileiros se acham bom nisto. Mas o Brasil é um país subdesenvolvido. Então, claro, sobraram os países ricos. E aí? Qual deles ajuda mais os países pobres?

Agradeçam aos EUA, mas não a George Bush. Ele, até os ataques de Bin Laden, caminhava para um isolacionismo crescente. Mas, agora...

Aí vai um trecho da matéria do Washington Post seguido do link para as fontes originais dos dados.

America's improved ranking reflects a series of revealing tweaks to the index. Last year's version counted contributions to multilateral peacekeeping efforts but not other military expenditures; this was unfair, because America frequently mounts solo missions. This year the index counts all peacekeeping and peacemaking operations sanctioned by the United Nations or some other multilateral body, so America's rank in the security category has gone from 18th to 11th.

Equally, America has done better because of the improved measurement of migration. Last year Switzerland did suspiciously well: The country welcomes large numbers of foreign workers with open arms because it needs to offset its energetic policy of booting out immigrants who've been around a bit. By switching from a gross measure of migration to a net one, the new index demotes the Swiss. The United States, on the other hand, now comes in second.

A third tweak responds to a frequent American complaint: that unflattering comparisons between America's aid budget and those of more generous Dutch and Scandinavians unjustly exclude private donations stimulated by U.S. tax incentives. The new index includes private giving attributable to tax breaks. Surprisingly, the impact is modest: The U.S. rank in the aid category rises from 20th to 19th.

The index is arguably still unfair to the United States. In the military category, it excludes U.S. bases in such places as South Korea or American naval protection of sea lanes, even though these boost global security and therefore economic progress. This year's index attempts to credit rich countries that put public money into research that could hasten development, but it does not reward privately funded research, of which the United States has plenty. Third, the index does not weight its components. Aid, a category in which the United States scores poorly, is treated the same as trade or migration, categories in which the United States comes first and second. Yet aid is worth $58 billion a year; remittances from migrants may be worth $80 billion a year; and the World Bank estimates that trade barriers in rich economies cost poor nations more than $100 billion per year.

What of the future? Bush has announced several policies that could improve America's standing. He's promised a Millennium Challenge Account that will eventually transfer $5 billion a year to poor countries with good policies, plus an AIDS initiative that could transfer a further $3 billion. These admirable initiatives could be eclipsed in financial terms by the president's migration proposal, announced earlier this year -- if he ever were to follow through with it. If Bush did something to kick-start the Doha round of trade talks, his claim to be making the world a better place would sound even more persuasive.


Link: The Center for Global Development
Bons livros

Dia extenuante este que tenho hoje. Pelo menos chegou minha encomenda. Um dos livros é de um autor que o Leo (aqui do blog) vive citando. Deveria ser referência obrigatória em Economia Brasileira Colonial (e Imperial, etc). Trata-se do Subdesenvolviment o e Desenvolvimento no Brasil de Nathaniel H. Leff.

Ele também está na excelente coletânea de Stephen Haber (How Latin America Fell Behind) que é leitura obrigatória de Zanella, Leo e eu, os economistas que gostam de estudar História Econômica de maneira séria, crítica e, bem....eu disse que estava com estes caras?

Bem, mas vale a leitura.

segunda-feira, abril 26, 2004

Há quantas andam os Waldomiros Dinizes?

O mundo tá cheio deles. E o Global Corruption Report mostra como andam as coisas para nosso lado. Dê uma checada. Vale a pena.

Global Corruption Report 2004
Da Espanha para sequestradores...com amor ("Um outro mundo é possível, mas ele exige que não haja partidos políticos")

Depois desta notícia, não tem como negar. O governo socialista foi ajudado - queira ou não a ajuda - pelos sequestradores iraquianos.

Trecho: Seqüestradores iraquianos mandam povo italiano ir às ruas

Agências Internacionais

DUBAI - Em um comunicado enviado ao canal de TV Al Arabiya, um grupo que diz ter em seu poder três italianos seqüestrados no início deste mês no Iraque ameaça matar os reféns, a menos que o povo italiano proteste contra a presença militar de seu país no Iraque. O comunicado foi entregue à emissora acompanhado de um vídeo dos seqüestrados.


Ou seja, que democracia que nada! O negócio dos sequestradores iraquianos é realmente: (i) derrubar governos democráticos via chantagem e, (ii) tirar qualquer influência ocidental da área de domínio do Islã (interpretado segundo Bin Laden, não segundo Salman Rushdie ou Ibn Warraq, este último assassinado pelos mesmos motivos que levaram o primeiro a se esconder).

Afinal, até a Jordânia, que está longe de ser um país "ocidental", virou alvo de ataques.

E, conforme lemos no yahoo outro dia: "'We don't make a distinction between civilians and non-civilians, innocents and non-innocents. Only between Muslims and unbelievers. And the life of an unbeliever has no value. It has no sanctity.'"

Fica difícil para os árabes não-seguidores destes malucos nos convencer das suas boas intenções? Fica. Afinal, eles não saem às ruas com frequência para criticar estes atos de terrorismo. A ironia, aliás, ocorreria se alguém começasse a sequestrar árabes no mundo ocidental, e fizesse o mesmo que os sequestradores iraquianos estão fazendo agora.

Curiosamente, nossas sociedades não apresentam esta simetria...ninguém sequestra árabes e obriga a população de algum país destes a sair às ruas contra o governo. Por que isto acontece (ou não acontece)?

domingo, abril 25, 2004

Óbvio, mas todo mundo erra

Eric Rasmusen ensina Fundamentos de Economia I para crianças. E olha que muito adulto erra...

Does Free Trade Make Welfare State Policies Harder to Maintain? Comparative and Absolute Advantage
Por que Porto Alegre e Los Angeles podem ser melhores que Belo Horizonte

Simples.

Um outro mundo é possível...vai encarar a participação?

Você, professor de Economia, revoltado com "tudo que aí está", cansado desta "globalização neoliberal excludente", que quer mesmo "resolver o problema da desigualdade mundial" e tem mais de dezoito anos....eis sua c.h.a.n.c.e. !

A Sulaymania University/Institute of International Education abriu suas portas! Há vagas para gente como você lá. Ao invés de ir trabalhar em Washington (argh!) para o Banco Mundial (argh!) falando de pobreza e fome, vá trabalhar no Terceiro Mundo!!!

Chance única de viver o "mundo real" que tanto se alardea estar distante dos modelos econômicos "abstratos e burgueses". E você ainda pode ser explodido num ônibus cheio de civis (oportunidade turística que só é possível, no Brasil, no Rio de Janeiro), pela causa anti-EUA!

Isso mesmo, o emprego é no Iraque.

Aproveite!

Chronicle Careers: Faculty Seminar Instructor- Iraq (4/19/2004)

p.s. será que dão bolsas para alunos? Tenho diversos nomes para sugerir.... :)
Líbia em direção a uma economia de mercado

Gaddafi, há muitos anos, fez sua própria versão do Livro Vermelho de Mao Zedong, o "Livro Verde". Desde então, a economia líbia tomou ares de um socialismo local (algo como: "socialismo adaptado às idéias do governante local que, segundo seu partido, interpreta bem as condições locais).

Entretanto, os tempos mudaram. Nem Gaddafi resistiu ao movimento dos mercados. Nem Gaddafi, nem os EUA, que estão aliviando a barra das sanções econômicas (taí algo que nunca sei se funciona, digo, as tais sanções....veja Cuba por exemplo).

E o pessoal, como na China, tem de rebolar para dizer que a nova interpretação das "sagradas escrituras" de Gaddafi é que é a correta.

Confira.

Libya takes own road to market economy

"When implementation of the Third Universal Theory began in 1977, eight years after Gaddafi's rise to power, the slogan "partners, not wage earners" translated into collective ownership of the means of production. And this led in turn to a state-controlled economy.

Economics professor and director of Tripoli's Graduate Studies Academy, Saleh Ibrahim, said this was "a wrong interpretation of the Green Book. Market economy does not contradict the Green Book."

"One can contribute with work, but also money, to a company. In the two cases he is a partner," argued Ibrahim, an advisor to the government on transforming the economy.

The need to reform was felt and acknowledged as early as 1986, when an oil price collapse reduced the financial capacity of the government to provide jobs and subsidise production and services".