sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Planejamento Central do Onanismo ou "por que os comunistas chineses devem ter famílias imensas"

"Quando fomos a Singapura, para um congresso na área sexual, vimos o trabalho de um médico, que também era membro do partido Comunista Chinês, onde ele atacava com intensa virulência a masturbação. Responsabilizava-a, entre outras coisas, por causar impotência, deixar as pessoas atoleimadas, e, o que pareceu ser o grande motivo, desviar a atenção das pessoas das grandes tarefas que o partido esperava delas, além de tornarem-se mais independentes e menos voltadas a atender às ordens do coletivo (o grifo é nosso [dos autores do trecho]). O trabalho, em nível científico, era um desastre, sem metodologia alguma. Era como se dissesse, na China, de cada 100 mortos, 99 são chineses, portanto os chineses são mais frágeis que os outros". [Carlos Eduardo Carrion & Lúcia Pesca, "O Sexo como o sexo é", Editora Sulina, 1998, 3a ed, p.20]

Riu bastante, né leitor(a)? Mas a justificativa do coletivo sobre o indivíduo é comum em mentes autoritárias. Veja, por exemplo, o título desta matéria de um famoso político brasileiro. E ele não está só. A mentalidade autoritária existe em todo lugar.

Economia é sobre incentivos. Se você quer gente produzindo muito e se esta gente não comanda sua própria vida, então você tem mais é de proibir a masturbação. Mas, como sabemos, o povo ainda reage....nem que seja tendo filhos.

Agora entendo porque a população chinesa cresce razoavelmente e porque o governo se preocupa em diminuir este crescimento. Primeiro, há o problema da má distribuição da população. Mas, claro, há também o problema da produtividade. Num regime de partido único e de economia baseada em produção, um chinês lendo Playboy no banheiro é equivalente a umas duas fitas métricas para exportação a menos.

Credo! :D
Não tem nada a ver, mas...

Pessoal, não tem nada a ver com a lista, mas quem já morou no RS sabe que lá, em 20.07 é dia do amigo. Não é feriado, nem nada, mas o povo enche seu mailbox com mensagens e cartões.

Agora, por que nos EUA a mesma comemoração é em 08.06? É um daqueles casos em que alguém teve a mesma idéia, mas em países diferentes (como no dia dos namorados que, aliás, está chegando...)?

Links:

Aqui : Dia do Amigo

Lá : Friend's Day
Nada na imprensa sobre este muro

Ainda não pude ler nada na imprensa nacional, que tem batido muito na construção da cerca por Israel, sobre este outro muro.

E o mais engraçado é o porquê da construção do mesmo. Embora haja a questão da terra, o governo da Arábia Saudita parece temer....o terrorismo islâmico. He, he, he. Isto sim é ironia. O resto é bobagem. Falando em bobagem, boa calourada para meus alunos hoje. Eu não poderei ir pois os exploradores imperialistas e globalizantes do DA do IBMEC (chamado, mineiramente, de "U.A.I.") estão cobrando caro. Muito caro... :D

MEMRI: Latest News: "Two months ago, the Saudi government began to build a fence along its border with Yemen in an attempt to separate the residents along both sides of the border. The border between the two countries was set out in the 2000 Jeddah border treaty, which included a 20 kilometer-wide neutral zone as a strip of grazing land permitted to both sides. The building of the fence enraged the Shi'ite Wayilah tribe on the Yemenite side, which even before its construction had objected to the location of the border."
Microcrédito versus estatização

O que é um regime baseado no mercado? É aquele no qual eu posso me endividar para adquirir bens, caso eu seja um sujeito impaciente. Claro, muita gente não gosta de dívidas (eu também não gosto), mas muito deles adotam este método para comprar casas ou automóveis, certo?

Bem, da mesma forma, existe o crédito para ajudar a financiar estudos de universitários no setor privado. Não é um microcrédito, mas lembra muito esta modalidade. Ontem um ex-aluno meu reclamava: "eu, fazer dívida para a vida toda?" . Claro, ele está, agora, numa universidade pública e, espertamente, não abriu mão de estudar.

Agora, estatizar vagas como insinua o MEC parece-me um contrasenso. É como dizer que vamos estatizar a FIAT ou a FORD porque nem todos os brasileiros têm carro. Ou dizer que vamos estatizar a padaria da esquina porque o dono está em "situação irregular".

Ora, se alguém está em situação irregular, regularize. Passe para alguém mais eficiente. Se substituir empreendedores por burocratas funcionasse, o muro de Berlin, hoje, estaria em Washington, D.C.

Para detalhes sobre a pertubadora proposta, veja o link abaixo. Palpites?

As associações que representam universidades privadas e filantrópicas receberam com reservas a proposta do ministério da Educação de “estatizar” vagas em universidades particulares, afirmando que é preciso debater mais o assunto. A reação mais forte, porém, foi contra as insinuações do ministro Tarso Genro de que as entidades seriam “empresas disfarçadas” que estariam em situação irregular.
Lição de Economia

Da coluna do Ancelmo Góis no O Globo de hoje:

"Cena carioca

Na madrugada de ontem, na saída do baile da Orquestra Imperial no Canecão, como chovia, apareceu, acredite, camelô vendendo guarda-chuvas a R$ 5.

A quem chiava, era oferecida uma carona até o Rio Sul a R$ 1.
"
Quem ganhará?

O Prêmio Milton Friedman, promovido pela patota do CATO Institute está próximo do anúncio. Ano passado quem ganhou foi Peter Bauer, um economista pouco conhecido e crítico das teorias desenvolvimentistas.

E este ano? Quem ganhará?

Milton Friedman Prize for Advancing Liberty

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Pobre Mankiw

Feliz do Mankiw se os problemas dele fossem só os debates sobre um trecho do seu livro de Introdução. O coitado é também assessor do Bush e caiu na asneira de dizer no Senado aquilo que todo economista sabe: outsourcing é bom para a Economia americana. Ele disse que a substituição de trabalhadores norte-americanos por indianos que, via internet, prestam serviços às empresas e aos consumidores levam a um ganho de bem-estar para os EUA. A imprensa, o partido republicano e o democrata caíram de pau no Mankiw.
Deve ser muito ruim viver em um país aonde ninguém aprendeu a Teoria das Vantagens Comparativas...
(Mais informações sobre esse rolo podem ser encontradas nos blogs do Tyler Cowen e do Brad Delong. Os links estão aí do lado)
Apertem os cintos, o Mankiw sumiu!

O leitor-aluno já deve conhecer o livro do Mankiw de introdução à economia. Pois bem, há um exemplo nele, para explicar a lógica do benefício marginal e do custo marginal. É aquela história do avião que já vai sair, a passagem é de R$ 500,00, chega um cara no balcão e oferece R$ 300,00 e, obviamente, é embarcado.

Pois bem, durante uma das minhas aulas hoje, alguns alunos fizeram algumas qualificações que acho interessantes.

Uma aluna do fundo da sala e outro exatamente na minha frente fizeram a mesma observação: "professor, mas se todos sabem que pode haver negociação, ninguém compra passagem antes. No mundo real isso não funciona".

É verdade que eles exageraram. Uma aluna, a Mariana (mais uma Mariana....) chamou a atenção, intuitivamente, para o fenômeno: é muito forçado assumir que, mesmo neste exemplo simples, todo mundo deixe para o final (como se alguém divulgasse a notícia da negociação para todos) a decisão de comprar a passagem.

Mesmo assim, há um ponto importante aqui: a repetição de um jogo pode realmente mudar os resultados ótimos. Quem estuda Teoria dos Jogos (Micro III ou Micro IV, dependendo do curso) sabe disto. Se na segunda etapa, eu divulgo que há a possibilidade de se conseguir preços menores, é óbvio que a tendência é que os que não têm um custo de oportunidade algo façam algo como "pagar para ver". Ok.

Posto isto, ironicamente, a mesma turminha achou que a divulgação da informação não foi importante no famoso experimento de pit market que eu apliquei em sala umas duas aulas antes. A mesma idéia de que todos estariam informados ocorre neste experimento em que há vários compradores e vários vendedores de várias unidades de um mesmo bem e no qual, a cada transação acordada, anuncia-se o preço em sala. [Qual é a idéia? A mesma do fofoqueiro do aeroporto...]

O que ocorre é que eles me disseram que a divulgação dos preços não ajudou muito no experimento. Por outro lado, são eles mesmos que querem que eu acredite que a divulgação de informações auxilie na negociação com a companhia aérea.

Fiquei pensando neste fato aparentemente paradoxal (gostaria de palpites), mas tomo a discussão final na sala, hoje, como o resultado positivo do experimento que fizemos antes. Os meninos (e meninas e torcedores do CAM) que me ouviram e discutiram comigo sobre o que poderia ter atrapalhado o funcionamento de nosso mercado hipotético parecem ter assimilado alguma coisa.

Pouca coisa? Talvez. Mas já é o começo. O que vocês acham disso tudo (falei um bocado de coisas, né?)?
Parabéns, Sr. Darwin.

Hoje faz 195 anos que nasceu Charles Darwin, o maior cientista da história. Um texto do ótimo Richard Dawkins comenta uma carta recentemente descoberta que mostra como ele antecipou até a genética mendeliana. A propósito, o Dawkins também comenta que é falsa a história de que o Marx teria tentado dedicar O Capital ao Darwin. Era apenas mais um causo que nossos professores de HPE contavam.
Keynesianos do sétimo dia, testemunhas de Karl Marx versus devotos da sigma algebra.

Uma das questões mais interessantes na economia é o debate acalorado entre os que atuam com esculacho analítico e os que propõem a axiomatização estéreo. De um lado, a briga entre pre-keynesianos, keynesianos e pós-keynesianos pela herança do Lord Keynes, enquanto que os novos-clássicos e novos-keynesianos propõem reformulação da teoria tentando esclarecer coisas tipo inflexibilidade de preços. Já as testemunhas de Karl Marx, lutam por tentar estabelecer quem foi o primeiro a descobrir o capítulo inédito de O Capital. Efetivamente, há boas idéias, mas nem todas operacionalizáveis.

Do outro lado, estão os devotos da sigma algebra. Bradando que lambda é amor, acabam por fazer uma modelagem estéreo, que carece de intuição. Via de regra, coisas antigas em matemática pura são acochambradas e apresentadas como grande novidade.

A questão é : ficar com o esculacho analítico ou com a axiomatização estéreo ? Acho que nenhum nem outro, mas uma combinação adequada de teoria e método quantitativo, a exemplo do que fizeram os físicos, químicos e recentemente os biólogos.
Confeitaria a serviço dos idosos...

E não é que Berzoini levou uma torta na cara?

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

Será tão bom quanto o livro de Lomborg?

Para quem acha que meio-ambiente é um problema como qualquer outro e, como tal, deve ser tratado com métodos científicos e não com anúncios catastrofistas, aí vai uma possível boa leitura.

TCS: Tech Central Station - Is the Dogma Unravelling?
Sociedades com discussões fulanizadas são menos desenvolvidas ?

As recentes discussões neste blog sobre os assuntos que propus e as discussões da sociedade brasileira, tais como os discursos e debates no parlamento ou as opiniões que aprecem na mídia me levam a fazer a pergunta que está no título.

Uma coisa que me chama a atenção é a forma como a mídia supostamente séria do Brasil trata de temas importantes, tais como invasão do Iraque ou ALCA, em relação à imprensa inglesa, francesa ou americana. Talvez o Shikida pudesse dizer alguma coisa sobre a imprensa japonesa. O fato é que os discursos são fulanizados. Não queria discutir Paulo Coelho ou seja lá quem for, mas o mercado de livros no Brasil. Também não queria discutir se cachorro é fofo ou serelepe, mas porque a sociedade brasileira gasta tanto com animais de estimação e tão pouco com gente. Similarmente, ninguém discute os aspectos positivos e negativos que estão por trás de uma área de livre comércio, ou em que circunstâncias os aspectos positivos seriam maximizados, e a favor de quem.

Algum comentário (sobre fulanização do debate e desenvolvimento sócio econômico) ?
E agora, José?

O aconteceria com o mundo se a globalização desse certo e os países pobres ficassem ricos? Que mundo seria esse em que o McDonald´s seria um exótica cozinha étnica e turistas chineses e indianos estariam em toda parte? Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do FMI, em artigo na Foreign Affairs sugere que os países ricos não estariam prontos para este cenário. Ele desconfia, ainda, que este medo de perda do status estaria por trás da defesa do protecionismo e do pouco apoio às políticas de desenvolvimento do Terceiro Mundo.

Eu acho que ele exagera no ponto, mas não deixa de ser interessante imaginar como seria um mundo onde realmente houvesse o catching-up de renda.
Post interessante

Alex Tabarrok, do Marginal Revolution (link fixo ao lado) trata de um tema importante neste post. Importante, principalmente para os fanáticos neo-racistas e gente menos perturbada (como eu).

Confira o problema neste link: Marginal Revolution: When Affirmative Action Kills
Elogio

Não é por nada não, mas enquanto o Leo anda lentamente para ler minhas mensagens (e as do Ari, sobre um certo artigo); enquanto dezenas de alunos inteligentes (exceto o distinto PPeennaa, para parafrasear o Gaspari) e, enquanto os calouros não fazem pedágio para salvar o Hubble (mas apenas para ajudar o Hospital do Câncer), este blog está pegando fogo.

Claro que o caráter maníaco do Gilson (isto é um elogio, creiam-me!) tem a ver com isso. Mas estas últimas semanas têm sido férteis em brigas. Isto quer dizer que ou a Economia está sendo aplicada ao mundo real de forma interessante ou estamos nos transformando num imenso boteco.

De qualquer forma, a polêmica anda grassando por aqui. Ainda bem. Valeu, Gilson.

terça-feira, fevereiro 10, 2004

Pãozinho: a briga

Você já imaginou um monte de políticos se degladiando para fixar o preço....do pãozinho? Loucura, né? Mas é algo comum na economia de
Israel.

Mais um exemplo de um país que, certamente, não tem um governo liberal...

Em breve, neste blog (tomara que não): governo de Israel controla o preço da margarina, mas libera o de carnes de porco e camarão. :D

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Votos eletrônicos: confiáveis?

Um debate no qual, talvez, eu seja o único ainda contra este sistema - pelo risco de perda de liberdade individual - é o do voto eletrônico. Agora, a notícia abaixo é de deixar o pessoal preocupado: as máquinas perderam alguns votos.

Bem, se você acha que nossas máquinas não têm bugs (nem meu irmão "computeiro" acredita nisto, creio), então, cuidado: pode ser que os custos do voto eletrônicos sejam mais elevados do que os benefícios....

Quer saber mais? Clique no link abaixo.

Wired News: E-Vote Machines Drop More Ballots
Os Ambientalistas mal equipados

Lomborg já havia apontado falhas similares em seu "O Ambientalista Cético" - um bom livro para se discutir problemas ambientais sem apelar para o grotesco discurso a-estatístico. E Kling, em seu blog (um dos nosso links fixos aí ao lado) tem opinião similar.

Assim, neste link, ele diz: "My view of environmentalists is that they use the fixed-coefficients production function for long-term forecasting. Thus, they ignore substitution and technological change".

E há um outro link levando o (e)leitor para um artigo de Ronald Bailey (o editor de ciência da Reason...outra de minhas leituras favoritas e também link fixo aí ao lado) sobre o tema.

Econometristas podem matar muita gente com suas previsões incorretas. Mas podem ajudar a salvar nossas visões imprecisas sobre o que realmente ocorre com o meio-ambiente? Fica ao leitor a perguntinha.

E, não, eu não reciclo meu lixo. Tenho preguiça. :D
Um bom link...ainda que pobre em informações

Talvez o pessoal do Liberty Fund melhore este link depois, com mais informações. Mas já vale pelas informações sobre seus livros.

Particularmente, eu quero comprar o do Lord Acton (ou ganhá-lo de presente... :D ).

domingo, fevereiro 08, 2004

The book is on the table
Algumas observações sobre o mercado de livros no Brasil


Porque o mercado de livros no Brasil é tão desfavorável ao consumidor brasileiro ? Algumas possibilidades :

1) o consumidor é masoquista e/ou maximizador de utilidade alheia. Ele adora ver as firmas do mercado editorial com lucros astronômicos ( hipótese quase totalmente, mas não completamente, descartável. Tem gente que acha chique pagar mais caro.)
2) o mercado de livros é um cartelzinho desprezível ( hipótese razoável). As firmas em geral têm exclusividade na publicação de uma obra. Há, então, situações de concorrência monopolística ou de monopólio puro. Nestes casos as firmas não costumam ligar muito para aquele tal de elasticidade preço da demanda .
3) a escala é nanômica. Exceto nos casos de livros de plantas ornamentais e auto-ajude-ao-autor-a-ficar-rico, a demanda por livros é muito pequena. Economia é um exemplo. Ídem para Matemática computacional, astrofísica estelar, etc. Recentemente, com a expansão das faculdades privadas, começaram a aparecer alguns títulos associados a cursos de direito e administração , e alguns títulos mais badalados de introdução à economia. No mais, auto ajuda e plantas ornamentais .
4) A velha teoria do muito sol e invernos generosos. O brasileiro não gosta de ler porque o pais tem muito sol. Logo, o custo de oportunidade de pensar em outra coisa que não mulher e cerveja é muito alto. Na Suécia , Rússia, Finlândia, Noruega, Groleândia, etc, as pessoas lêem muito porque o inverno é rigoroso. Nem sempre dá para sair de casa. A melhor diversão é ler. Isto é pouco provável. Já teve uma época que o mundo árabe era líder em tecnologia e conhecimento e lá não é nem um pouco mais frio que aqui. Ídem para Incas, Maias e Astecas. Além disso, pingüim nunca ganhou Nobel.

E aí ? Alguma explicação ?
Auto-propaganda desavergonhada (e vergonhosa?)

Acaba de ser publicado o Para Além da Política - Por William C. Mitchell e Randy T. Simmons cuja nota à edição brasileira é, com orgulho, minha. Edição conjunta da Topbooks com o Instituto Liberal....e uma bela capa (como o (e)leitor pode ver abaixo). Se você quiser comprar na livraria do IL-RS, clique aqui. Na Topbooks, você o acha aqui.

Hall of Fame: Econometrics

Borel usava cavanhaque? Cramer tinha pouco cabelo? Cauchy tinha um nariz grande? Estas e outras perguntas podem ser respondidas no link abaixo.

The Econometrics Hall of Fame A-K L-Z
Resenha de “Da Moral em Economia” do ex-embaixador José Osvaldo de Meira Penna

Este livro não é de fácil resenha. Quando o adquiri, pensei – lendo seu título – que estaria de posse de uma resenha de questões como as levantadas por James Buchanan ou Amartya Sen, com alguma adição de idéias próprias de nosso último (?) remanescente dos pensadores liberais brasileiros oriundos do Itamaraty. Na verdade, trata-se de um livro que tem muito das idéias do autor sobre psicologia social com um forte componente crítico de aspectos da política nacional.

O leitor apressado não deve se confundir: existem vários tipos de liberais no mundo. Não se trata de uma forma de pensamento homogênea e, talvez, a melhor forma de ver isto seja através deste link ou através deste teste (Politopia). Creio que o ex-embaixador e eu temos algumas divergências quanto ao tipo de liberalismo que achamos mais adequado ao Brasil mas, claro, isto não é alvo desta resenha. Pois vamos à mesma.

O livro se divide em dez (10) capítulos e sua diagramação me é incômoda pois há uma irregular variação no tamanho das fontes utilizadas no texto. Pessoas oriundas do mundo acadêmico, como eu, estão acostumadas com mudanças assim apenas por motivos de citações originais de outros autores. No livro do embaixador, parece haver intenção similar, mas me parece um pouco confuso o uso destas fontes. Há também uma falha que, espero, seja corrigida em edições posteriores: na página 59, em sua última linha, temos uma frase incompleta. O autor, gentilmente, informou-me o complemento (“...sobrevivência da própria liberdade”). Finalmente, outro incômodo na diagramação do livro é a figura 1 que aparece na p.92, muito antes de ser citada.

Economistas não se sentirão à vontade com o livro, devo dizer. Mesmo no capítulo 1, sobre praxeologia – um tópico eminentemente misesiano – Meira Penna se utiliza de sua (vasta) erudição para traçar paralelos com outras áreas do conhecimento. Embora seja um capítulo de agradável leitura, eu remeteria o leitor interessado em praxeologia à obra original de Mises (A Ação Humana), cuja leitura, embora cansativa, pode ser mais detalhada e mais sedimentada em conceitos econômicos.

O capítulo 2 é um bom capítulo sobre a falácia do bom selvagem que é a fonte de muita engenharia social cuja pior consequência é desaguar no oceano totalitário. O capítulo 3 procura apresentar a importância dos direitos de propriedade mas contém algumas impropriedades. Por exemplo, na p.68, diz-se que: “Tal qual de fato sustenta o Prêmio Nobel, criador da Escola de Escolha Pública (Public Choice), todos os empresários preferem seu próprio lucro ao lucro do concorrente”. Na verdade, isto é tão antigo quanto Adam Smith. O que o autor provavelmente quis dizer é que este comportamento racional, quando presente na área pública de um sistema econômico, pode fazer com que os interesses egoístas sejam canalizados para a obtenção de rendas – via governo – com diluição de custos por todo o restante da sociedade.

No capítulo 5, o autor explora um tema comum em Economia que é a inconsistência intertemporal de decisões no curto e longo prazos através dos conceitos de razão curta e razão longa. Na verdade, o autor poderia ter usado uma literatura que, por sinal não explora, a literatura novo-institucional representada pelos trabalhos de Douglass North e associados. Não é necessário criar novos conceitos (razão curta e longa) para tentar explicar o problema de curto e longo prazo moral na Economia. Entretanto, a tentativa do autor de operacionalizar estes conceitos é bem-vinda pois a compreensão da ideologia, em modelos microeconômicos de ação coletiva é, ainda hoje, bastante subdesenvolvida.

Um ponto que me desagrada é a citação à Hazlitt (p.206). Hazlitt, como se sabe, é famoso por ter escrito um livro de Economia (Economics in one lesson) que é muito citado por diversos economistas libertários da linha austríaca. Meira Penna o qualifica como grande economista o que, creio, não é a opinião da grande maioria dos economistas (não-marxistas). Hazzlitt não é conhecido por ter feito nada de relevante em Teoria Econômica, mas apenas por este livro que, bom ou não – e aqui me apóio em David Friedman em seu ceticismo quanto a este autor (vide as recomendações de leitura em The Machinery of Freedom) – não me parece suficiente para qualificá-lo quase em pé de igualdade com gente, por exemplo, do porte de James Buchanan ou mesmo de Karl Marx.

Aliás, há uma característica muito frequente – e que me desagrada – nos escritos de liberais e conservadores-liberais brasileiros: como são (somos) fortemente excluídos da imprensa nacional em termos de espaço para publicação, tendem a praticar uma forma de citação de seus pares liberais que, muitas vezes, exagera no superlativo. Lembro-me de ter sido repreendido, em um fórum de discussões na internet, por não concordar com as opiniões de um liberal. Como sou um liberal, ignorei a repreensão e continuo me guardando o direito de discordar de meus amigos quando os acho inconsistentes. Naturalmente concedo-lhes o mesmo direito.

As tentativas de análises econômicas do autor não são, a meu ver, bem fundamentadas. Primeiramente, dados, quando apresentados, vêem sem fonte. Por exemplo, o leitor é informado que o desemprego nos EUA é de 5% (p.271), mas não se sabe quando. A análise do salário mínimo como gerador de distorções é, a princípio, correta. Mas, veja bem, a princípio. O efeito da adoção de instituições como a do salário mínimo é deletério em economia básica. Mas, basta tornar os modelos menos irrealistas para que este efeito seja menos claro. Se Meira Penna se baseia em economistas austríacos mais tradicionais (i.e. que não usam modelos em forma matemática), então está exposto às mesmas críticas que têm levado muitos novos economistas austríacos a tentarem se aproximar do debate científico com o uso, sim, de modelos ou de econometria.

Aliás, ainda sobre economia, há um certo mistério sobre o que o autor entende por expectativas racionais. O conceito aparece poucas vezes no livro e, para mim, não ficou muito claro se o autor o está criticando ou não. Meira Penna parece seguir os economistas austríacos na crítica dos modelos econômicos tradicionais neste ponto.

Sobre a linguagem do autor, esta é bastante agressiva e cruel com os seus desafetos políticos. Isto não é necessariamente ruim – é até divertido – mas pode espantar leitores curiosos quanto ao liberalismo. Sendo uma obra não-acadêmica, não há motivos para se criticar este tipo de linguagem, mas, mesmo um simpático às idéias liberais como eu pode se sentir desconfortável com tantas repreensões. Creio que, se o objetivo do autor – e provavelmente é um dos seus objetivos – é atrair mais pessoas para a apreciação positiva das idéias liberais, um pouco menos de agressividade seria suficiente. Particularmente sou mais simpático a argumentos teóricos como os expostos em The Lost Literature of Socialism, embora, confesso, adore as ironias e neologismos que Meira Penna cria.

Apesar de não concordar com alguns aspectos da obra de Meira Penna, não posso deixar de me fascinar com a produtividade do mesmo. O autor é um liberal que escreve já há muitos anos e tem procurado se manter atualizado nos diversos aspectos dos avanços da teoria liberal moderna. Lamentavelmente, meus conhecimentos de psicologia me impedem, obviamente, de apreciar diversos pontos da análise do autor. Outro grande serviço que o autor presta à cultura nacional é divulgar autores estrangeiros pouco conhecidos aqui (como Ayn Rand ou Lord Acton, por exemplo). Não que sejam autores desconhecidos em outros países, mas o desconhecimento, por exemplo, de quem tenha sido Lord Acton, no Brasil, é algo preocupante. Seja por causa da falta de cultura ou por causa da propalada hegemonia gramsciana da esquerda nos meios culturais.

Concluindo, creio que economistas não gostarão do livro, pois o título não corresponde ao que um acadêmico médio de minha ciência espera encontrar no livro. Isto não lhe tira o valor e, para colaborar com o esforço do autor, gostaria de recomendar algumas leituras complementares para o leitor interessado em liberalismo.

Embora o autor siga muitos de meus amigos do Instituto Liberal em sua paixão com os economistas austríacos, ainda acho que The Machinery of Freedom (David Friedman) e The Joy of Freedom (David Henderson) são mais adequados. A análise econômica dos austríacos não é, hoje em dia, limitada à (dogmática?) postura anti-modelamagem que aparece notadamente em Mises. Basta ver os últimos números da Review of Austrian Economics e os diversos artigos de uma figura-chave desta abordagem: Peter Boettke. Seu pluralismo é bem-vindo e merece maior apreciação daqueles que, como eu, gostam da Teoria Austríaca mas também compreendem que, como disse Milton Friedman: “não existe economia austríaca e não-austríaca. Existe boa e má economia”. Resta-nos saber como encontrar e construir a boa economia.